As festas de fim de ano chegam sempre carregadas de expectativa. As frases prontas e as músicas dos comerciais desenham um cenário de família reunida, reencontros felizes, mesa farta e afeto quase obrigatório. Mas, para muitas crianças e adolescentes, esse período tem um lado que raramente aparece nas fotos: a tensão de ser exposto, avaliado e comparado dentro do próprio convívio familiar. Perguntas invasivas, brincadeiras que ultrapassam limites, comentários sobre o corpo ou sobre a vida pessoal, críticas feitas em tom de humor e cobranças indiretas fazem parte de uma tradição que muitos adultos naturalizaram sem perceber o impacto emocional que ela provoca.

Enquanto a festa segue, crianças e adolescentes tentam administrar sozinhos sensações de vergonha, constrangimento e medo de desapontar. Os adultos acham que “é brincadeira”, que “todo mundo passou por isso e sobreviveu” e até que “bullying começa em casa”. Só que, para quem ainda está formando identidade, limites e autoestima, esse tipo de situação não é “brincadeirinha boba; é uma marca.

Há ainda um ponto que costuma passar despercebido: muitos pais também estão atravessados pelo medo do julgamento, de parecerem “frouxos”, superprotetores ou de estarem criando filhos frágeis demais. Em nome dessa validação social – cada vez mais presente nas redes sociais – acabam tolerando comentários, piadas e exposições que ferem os próprios filhos, como se proteger fosse sinal de fraqueza.
O problema é que infância e adolescência são, sim, períodos de fragilidade. São fases em que identidade, autoestima e senso de valor ainda estão em construção, especialmente quando o olhar do outro tem um peso tão grande. Negar essa vulnerabilidade não fortalece, apenas deixa a criança sozinha diante de situações para as quais ainda não tem recursos emocionais suficientes para se proteger.
Nenhum adulto se lembra exatamente do que disse numa ceia de Natal de dez anos atrás, mas uma criança ou um adolescente se lembra perfeitamente do momento em que foi ridicularizado, comparado ou sexualizado em público.

Situações típicas que causam danos e por que elas podem ser dolorosas
Para compreender a importância da proteção, vale olhar para algumas situações comuns nas festas e o que elas provocam de forma silenciosa.
Perguntas sobre vida amorosa

“O namorado apareceu?” ou “E as namoradinhas?” costumam ser ditas em tom de brincadeira, mas podem ter efeitos complexos na cabeça deles. Nunca conheci nenhum adolescente que ache essa pergunta razoável, mesmo os mais extrovertidos. A pergunta coloca o adolescente em um lugar de exposição pública sobre um tema íntimo e, muitas vezes, na frente de pessoas que os encontram uma vez por ano. Para jovens LGBTQIA+, para quem está lidando com dúvidas sobre o corpo ou a sexualidade, para quem viveu uma decepção amorosa recente ou sequer pensa nesse assunto, a pergunta reforça a sensação de inadequação. Há um desconforto imediato diante de uma platéia que observa e espera uma reação. Há, inclusive, uma perversidade nessa pergunta, já que todos sabem o constrangimento que pode causar. A criança sorri sem jeito, o adolescente revira os olhos, mas a mensagem que fica é: “estão olhando para você e avaliando sua vida íntima”.

“Muito magrinha”, “como engordou”, “precisa se cuidar”, “engordou mais que a mãe”. Frases como essas seguem circulando nas festas de família como se fossem inofensivas. Muitos adultos acreditam na própria narrativa de que falam “pelo bem deles”, mas não há absolutamente nenhuma evidência de que comentários como esses ajudam alguém que está acima do peso, por exemplo. Além disso,o corpo de uma criança ou de um adolescente está em transformação constante, e comentá-lo é interferir diretamente na construção da autoestima e na relação que esse jovem terá consigo mesmo ao longo da vida. Esses comentários não se dissolvem com o tempo; eles se alojam no subconsciente. Muitos adultos que hoje convivem com distorção de imagem, transtornos alimentares ou profunda insatisfação corporal começaram a adoecer ainda na infância, ouvindo exatamente esse tipo de fala em ambientes que deveriam ser de proteção e cuidado.
Em uma aula recente sobre alimentação, fiquei impactada pelos relatos de meninos e meninas em torno dos 15 anos que passaram a vida sendo atravessados por observações perversas sobre seus corpos. O mais triste não era apenas o conteúdo das falas, mas a naturalização do silêncio. Muitos diziam, com certa resignação, que aprenderam a ficar calados, esperando que o momento passasse logo, como se suportar fosse a única forma possível de atravessar a exposição o mais rápido possível. Alguns disseram até mesmo que vomitavam a comida após a ceia ou dormiam com fome.
Comparações acadêmicas ou profissionais

“Seu primo já passou no vestibular e você?”, “E as notas?”, “Está estudando ou só mexendo no celular?”. Quando esse tipo de pergunta aparece em público, a comparação deixa de ser apenas incômoda e passa a ser estruturante. Assim como acontece na escola, expor o desempenho de um adolescente diante de outras pessoas produz vergonha, e a vergonha não estimula o aprendizado; ela gera sensação de incapacidade intelectual. Aos poucos, o jovem começa a associar estudo não à curiosidade ou ao desejo de compreender, mas ao risco constante de falhar diante do olhar do outro.
O problema é que aprender pressupõe exatamente o contrário: tentativa, erro, reformulação, tempo. Quando o erro passa a ser tratado como fracasso moral, e não como parte do processo, instala-se uma insegurança profunda. Muitos adolescentes deixam de perguntar, de tentar, de se expor intelectualmente, não porque não sejam capazes, mas porque aprender passa a significar se colocar em perigo. Nesse contexto, o estudo deixa de ser um espaço de construção e vira um campo de defesa. A mensagem que se internaliza é cruel e equivocada: errar é errado, falhar é vergonhoso, e o valor pessoal está condicionado ao acerto. Não surpreende que tantos jovens estudem com medo, e não com interesse.
Por que esses episódios têm tanto impacto emocional?
No contexto da festa, o jovem está vulnerável por vários motivos: está fora da rotina, muitas vezes longe de um espaço em que se sente seguro, cercado de adultos que não convivem com ele no dia a dia e exposto a comentários com plateia. A exposição pública faz com que o impacto emocional seja ainda maior. Uma fala que talvez fosse menos dolorosa em particular se transforma em humilhação quando dita diante dos outros.
Crianças e adolescentes ainda estão formando repertórios psíquicos para lidar com constrangimento, para estabelecer limites e para se posicionar diante de adultos. Quando são expostos, tendem a se calar. E é justamente nesse silêncio que os danos crescem e se multiplicam.
Como proteger sem criar conflito: intervenções possíveis, firmes e discretas
Proteger não exige discussões, discursos longos ou rupturas familiares; exige presença, sensibilidade e algumas estratégias simples.
- Prepare antes: converse com seu filho sobre o que pode acontecer
Explique que algumas perguntas ou comentários podem surgir, mas que isso não define quem ele é e que vocês estarão juntos. Combinar sinais prévios, como um olhar, uma frase, ou um gesto ajuda a criança ou o adolescente a se sentir amparado. Só isso já reduz enormemente a sensação de desamparo que esses encontros podem gerar. - Interrompa a situação com elegância
Muitas vezes, basta desviar a conversa com firmeza e calma. Você pode dizer:“Preferimos falar disso outro dia.”ou “Vamos mudar de assunto, estamos celebrando.”Não há constrangimento nem hostilidade, apenas limites sendo impostos com educação. - Redirecione o foco
O redirecionamento é uma das técnicas mais eficientes. Se alguém pergunta sobre namoro, você pode inserir outro tema imediatamente: “Aliás, ele está muito animado com as aulas de violão.” O adulto entende, a criança percebe a proteção, e o assunto muda naturalmente. - Após a festa, acolha com profundidade
O momento mais importante de todos é o pós-festa. Pergunte como a criança ou o adolescente se sentiu, valide desconfortos e reconheça o incômodo. Isso reconstrói o que foi ferido e dá a ele a certeza de que não está sozinho, mesmo quando o ambiente familiar não oferece segurança.
O que estamos realmente protegendo
Evitar comentários invasivos não é “frescura” nem “sensibilidade exagerada”: é uma forma concreta de preservar a saúde emocional e o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Quando eles percebem que existe ao menos um adulto disposto a intervir com delicadeza, sem humilhação e sem conflito, aprendem que limites são possíveis, que respeito não é negociável e que suas emoções têm valor. A sua intervenção não apenas protege o seu filho como também aumenta a confiança que ele sente em você.
Mais do que presentes, fotos e celebrações, aquilo que fica para a criança é a sensação de que há alguém atento o suficiente para enxergá-la. E isso é o que transforma as datas comemorativas em lembranças verdadeiramente amorosas.
