
Todo fim de ano tem esse clima conhecido: a sensação de que algo se encerra, mesmo que nada tenha terminado de fato. Fazemos balanços improvisados, revisitamos decisões, olhamos para trás com uma mistura de orgulho, arrependimento e cansaço. E, ao mesmo tempo, sentimos esse chamado quase silencioso para seguir adiante, mesmo sem saber muito bem por onde.
E é justamente desse lugar que Irvin Yalom: De Frente Para o Sol se aproxima de nós.
Para quem já cruzou com seus livros, Irvin Yalom não é exatamente um desconhecido. Psiquiatra, terapeuta e escritor, ele circula há décadas num território em que reflexão profunda e leitura fluida caminham juntas. Seus romances filosóficos — Quando Nietzsche chorou, O problema de Spinoza, A cura de Schopenhauer — circularam pelo boca a boca, encontraram leitores atentos e se mantiveram presentes por tempo suficiente para criar uma relação de familiaridade com seu nome e sua obra.

O documentário não tenta explicar a vida. Tampouco oferece respostas prontas sobre envelhecer, amar, trabalhar ou seguir em frente. Ele apenas nos leva a observar. Escutar. E, nesse movimento, também nos convida a olhar para a própria existência com franqueza e menos pressa.
Ao longo do filme, vemos Yalom revisitar sua trajetória profissional, a vida construída ao lado da esposa, a experiência da perda, o envelhecimento, a relação com os filhos, o impacto de sua obra.
Depois da morte da esposa — parceira de mais de seis décadas —, Yalom não se fecha. Não se cristaliza numa narrativa de fim. Ao contrário: ele se reinventa. Retoma a vida profissional de outro jeito. Estabelece uma nova relação amorosa. Reorganiza o cotidiano, os afetos, o tempo. Sem negar a dor, mas também sem transformá-la em destino.

E talvez seja aí que o filme toque num ponto especialmente sensível para quem assiste neste momento do ano: a ideia de que os ciclos não se encerram com solenidade, nem com frases definitivas. Eles se fecham enquanto outros começam a se abrir — ainda sem forma, ainda sem mapa.
O documentário não romantiza a passagem do tempo. Ele afirma o tempo todo que a vida continua pedindo ação. Continua exigindo escolhas. Continua oferecendo encontros, mesmo quando o terreno parece instável.
Assistir a De Frente Para o Sol é aceitar esse convite sutil: caminhar sem a ilusão de que o próximo ano já está desenhado. Entender que o caminho não vem pronto. Ele se constrói no passo seguinte, e no outro, e no outro.

A partir desse gesto de presença que o documentário propõe, a aquarius desenha um percurso possível para quem sente que o fim do ano pede mais do que distração. Pede pausa. Uma espécie de silêncio em que a gente não foge das perguntas difíceis, mas também não precisa respondê-las todas de uma vez.
Outros filmes da plataforma caminham por esse mesmo território, cada um à sua maneira. Alguns se aproximam da experiência da meditação e da atenção plena, como Ser Feliz por Nenhum Motivo ou O Movimento Mindfulness, convidando a desacelerar e observar o que realmente sustenta uma vida com mais presença. Outros ampliam o olhar para o impacto emocional do nosso tempo, como A Sabedoria do Trauma, com Gabor Maté, que nos ajuda a perceber quantos padrões repetimos sem perceber, e quantos deles já não fazem mais sentido carregar para o próximo ciclo.

Há também filmes que nos colocam diante de uma pergunta incômoda, mas necessária: o que estamos chamando de felicidade? Happy: A ditadura da felicidade nas mídias sociais desmonta essa ideia performática de sucesso e bem-estar, tão comum nas retrospectivas de fim de ano, e abre espaço para uma conversa mais honesta sobre cansaço, frustração e expectativas irreais.
O que une essas obras não é um tema fechado, nem uma resposta única. É uma disposição comum: olhar para a vida como processo, não como resultado. Como algo que se reorganiza o tempo todo, inclusive quando achamos que já deveria estar resolvido.

Concluir um ano não é fazer um balanço contábil da própria existência. É reconhecer o que mudou, o que doeu, o que foi bom, o que permaneceu. É aceitar que alguns ciclos se encerram sem alarde, enquanto outros começam ainda sem nome.
Esses filmes não oferecem respostas prontas, mas deixam algo valioso: boas perguntas. Perguntas que não encerram o ano, mas ajudam a atravessá-lo
🔸 Que parte de mim já não faz sentido levar para o próximo ciclo?
🔸 O que permaneceu, apesar de tudo — e o que isso revela sobre mim?
🔸 Em quais momentos eu recuei por medo sem perceber?
🔸 O que, neste ano, mereceria ser concluído com mais cuidado do que pressa?
🔸 Que gesto simples poderia inaugurar o próximo passo, mesmo sem garantias?
Não se trata de conclusões, mas de um certo olhar para o que ainda está em movimento. E de entrar no próximo ciclo não com certezas, mas com coragem para dar os próximos passos.
Neste texto e para ir além:

Documentário: Irvin Yalom: De Frente Para o Sol, na aquarius

Documentário: Ser Feliz por Nenhum Motivo, na aquarius

Documentário: O Movimento Mindfulness, na aquarius

Documentário: A Sabedoria do Trauma, na aquarius

Documentário: Happy: A ditadura da felicidade nas mídias sociais, na aquarius
