O mito da felicidade contínua

Nesta edição: Por que tentar ser feliz o tempo todo adoece?

A ideia de que deveríamos estar felizes o tempo todo não é apenas uma tendência cultural recente, mas o resultado de um processo histórico que transformou emoções humanas em problemas individuais. Na lógica contemporânea, tristeza, tédio, raiva e cansaço passaram a ser tratados como falhas emocionais a serem corrigidas, e não como experiências legítimas da vida. O paradoxo é evidente: nunca se falou tanto em felicidade e nunca se adoeceu tanto.

Para a psicóloga Flávia Albuquerque, mestra em Educação pela UFMG e criadora do perfil Despatologiza, essa transformação não é natural, nem fruto de um avanço no cuidado emocional, mas parte de um projeto político mais amplo. Segundo a psicóloga, o sofrimento psíquico foi progressivamente retirado de seu contexto social e convertido em uma questão privada, especialmente a partir da consolidação do neoliberalismo e de um modelo psiquiátrico biologicista.

“A transformação de emoções humanas universais, como tristeza, tédio e raiva, em sintomas patológicos a serem eliminados representa uma perda profunda da dimensão existencial e política do sofrimento psíquico. O que acontece nesse processo é que o sofrimento deixa de ser lido como uma resposta a um mundo adoecedor e passa a ser tratado como uma falha individual, como se o problema estivesse no sujeito e não nas condições de vida que ele enfrenta.”

Segundo Flávia, esse movimento, conhecido como medicalização da vida, opera uma dessocialização do sofrimento. Emoções deixam de ser compreendidas como mediações simbólicas com o mundo e passam a ser classificadas como disfunções. A raiva, que poderia sinalizar injustiça ou violência, vira “irritabilidade”, a tristeza diante de perdas reais é reduzida a “depressão” e o tédio, que pode expressar recusa a um cotidiano esvaziado de sentido, é tratado como apatia a ser corrigida.

“Ao patologizar essas emoções, nós desapropriamos o sofrimento de seu potencial transformador. Ele deixa de ser um alerta, uma denúncia ou um pedido de mudança e passa a ser um problema privado a ser administrado. Com isso, individualizamos.

Essa leitura ajuda a compreender por que o crescimento do consumo de medicamentos psiquiátricos não tem sido acompanhado por um aumento do bem-estar.

Levantamento divulgado em 2024 pelo Conselho Federal de Farmácia, com base em análise realizada pela empresa de inteligência de dados em saúde Sandbox, aponta que, entre agosto de 2022 e agosto de 2024, o Brasil registrou um aumento de 18,6% no consumo de medicamentos voltados à saúde mental, a partir da análise de dados de 616.101 pacientes em bases de dispensação farmacêutica. Desse total, 74% dos medicamentos consumidos eram antidepressivos e 26% ansiolíticos, indicando a centralidade da farmacoterapia no enfrentamento do sofrimento psíquico contemporâneo.

No entanto, esse crescimento não foi acompanhado por melhora proporcional nos indicadores de bem-estar subjetivo e qualidade de vida monitorados por órgãos oficiais nacionais e internacionais, reforçando o descompasso entre medicalização crescente e bem-estar coletivo.

De acordo com o World Happiness Report 2024, elaborado pela ONU em parceria com a Sustainable Development Solutions Network, a média global de satisfação com a vida (medida em escala de 0 a 10) permaneceu estagnada no período 2021–2023, com queda significativa entre jovens adultos em diversos países. o Brasil aparece na 44ª posição no ranking global de felicidade, com uma pontuação média de 6,12. O estudo mostra que, apesar de oscilações econômicas e sociais, o país não apresentou melhora significativa nos níveis de bem-estar subjetivo em relação aos anos anteriores, acompanhando a tendência global de estagnação da satisfação com a vida.

Essa constatação ganha apoio em dados nacionais. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde e a Síntese de Indicadores Sociais 2024, do IBGE, indica aumento na prevalência de diagnósticos de depressão e ansiedade e manutenção de níveis elevados de estresse e piora da autoavaliação de saúde entre adultos, sem evidência de melhora proporcional na percepção de qualidade de vida. Esses dados reforçam o descompasso entre a expansão da medicalização do sofrimento psíquico e o bem-estar coletivo.

Portanto, segundo Flávia, os dados revelam exatamente o contrário do que o esperado por uma sociedade sedenta por felicidade: quanto mais se tenta silenciar quimicamente o sofrimento, mais ele se espalha, sobretudo entre mulheres, jovens e populações socialmente precarizadas. O sofrimento tem endereço social, mas continua sendo tratado como falha individual.

Felicidade ancestral e contemporânea

Essa crítica, embora formulada no campo acadêmico e clínico, ecoa com força em saberes ancestrais que nunca separaram emoção, corpo, espírito e vida coletiva. A anciã Tupi-Guarani Cunhã Dju, da aldeia Tabaçu, no litoral de SP, lembra que, em sua tradição, a busca nunca foi pela felicidade constante, mas pelo equilíbrio com o dia vivido.

“Antigamente, ninguém acordava querendo ser feliz o tempo todo. A gente acordava querendo estar em paz com o dia. A tristeza, o cansaço e até a raiva eram sinais do corpo e do espírito dizendo que algo precisava de cuidado.”

Segundo Cunhã Dju, o adoecimento começa quando as pessoas são ensinadas a perseguir a felicidade como um objeto externo, como algo que se pode comprar, acumular e exibir. Quando essa promessa não se cumpre, o sofrimento deixa de ser reconhecido como parte da vida e passa a ser vivido como erro pessoal.

“Hoje, ensinaram as pessoas a correr atrás da felicidade como se fosse um objeto para comprar ou mostrar. Quando ela não vem, acham que estão erradas. Isso adoece o coração.O espírito não vive só de alegria. Ele precisa de silêncio, de choro, de espera. Quem tenta sorrir sempre, uma hora adoece por dentro”, diz a anciã.

Essa compreensão dialoga diretamente com a psicologia contemporânea quando ela se afasta das promessas fáceis.

Segundo o psicólogo Henrique Bueno, mestre em Psicologia Positiva pela University of East London e professor do primeiro programa de mestrado do mundo em Estudos da Felicidade na Centenary University (EUA), um dos principais equívocos do discurso atual é tratar a felicidade como ponto de chegada ou estado permanente. De acordo com o especialista em felicidade, o cérebro humano se adapta rapidamente às conquistas, o que torna insustentável a ideia de felicidade contínua.

“A gente chega em vários ‘lás’ ao longo da vida, mas se acostuma muito rápido. Logo o cérebro começa a prometer felicidade em um próximo lugar, em uma próxima conquista.”

Segundo ele, a tentativa de eliminar emoções difíceis não apenas falha, como intensifica o sofrimento. “A vida é feita de altos e baixos. Quando a gente tenta fugir das emoções chamadas negativas, a gente ativa ainda mais essas emoções.”

Para Henrique, felicidade não se confunde com alegria passageira ou prazer constante. Trata-se de uma experiência mais ampla, que envolve sentido, engajamento e coerência com aquilo que se considera valioso.

“Felicidade envolve emoções boas, mas também envolve a percepção de que a vida faz sentido e vale a pena. Eu posso me perceber feliz mesmo em momentos difíceis, se estou vivendo uma vida alinhada com o que considero importante.”

O grande desafio do nosso tempo é esquecer a ideia de ser feliz o tempo todo e reaprender a escutar o que cada emoção está tentando dizer. Ao colocar em diálogo a psicologia crítica, os saberes ancestrais e a ciência da felicidade, fica evidente que o sofrimento não é um erro de sistema, mas parte viva da experiência humana e, muitas vezes, o primeiro sinal de que algo precisa mudar, não apenas dentro de nós, mas no mundo que nos cerca.


Caroline Apple

Caroline Apple é jornalista e colunista do Brasil de Fato, onde assina a coluna Psicodelia Brasileira. É colaboradora no Instituto Yorenka Tasorentsi, onde trabalha na comunicação do Fórum Mundial da Ayahuasca.

É estudante de pós-graduação em Antropologia e tem como foco o estudo da doutrina do Santo Daime e o uso da ayahuasca e de outras bioculturas em contexto urbano.

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