
“Saúde mental é a arte de atravessar tempestades indo de encontro ao sol. É o poder de lidar com os altos e baixos da vida, transformando cada desafio em oportunidades de crescimento.”
Buscando entender as causas dos males que me acompanharam por anos, tornei-me especialista em saúde mental. Hoje compartilho com milhares de pessoas um tema que ganhou espaço na sociedade contemporânea — infelizmente, não por amor, mas pela dor. Assim também foi comigo, e por isso conheço bem esse caminho.
Vamos caminhar juntos
Em 1946, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu que saúde não é apenas “não estar doente”, mas sim equilíbrio integral entre corpo, mente e relações sociais. Bingo! Não há saúde sem integralidade. E isso inclui reconhecer os corpos sutis: aquilo que não se vê, mas se sente. Você não vê seus pensamentos, mas sabe que eles existem. O mesmo acontece com suas emoções. De forma simplificada, somos constituídos por:
corpo físico (matéria, organismo), corpo mental (pensamentos, raciocínio, memória), corpo emocional (sentimentos) e espiritual (dimensão ligada ao sentido da vida, valores e transcendência).
Essas categorias variam conforme tradições e linhas de estudo, mas todas apontam para a mesma direção: para conquistar saúde integral é preciso cuidar de todos os corpos. A mente, nesse conjunto, é a chave mestra. É nela que nascem os pensamentos, que geram sentimentos, e destes surgem os comportamentos. Uma verdadeira engrenagem. A qualidade das nossas relações depende dos nossos comportamentos. Assim como nossas escolhas conscientes e o sentido de vida estão diretamente ligados aos valores que cultivamos. Ao longo deste artigo, vou apresentar caminhos para sua saúde integral — que naturalmente inclui a saúde mental.
O mal do século

A saúde mental tornou-se pauta mundial. Vivemos por muito tempo como se não fosse necessário cuidar da mente, das emoções e do espírito. Mas como isso seria possível, se somos a soma desses corpos? Você se alimenta, dorme e toma banho todos os dias para cuidar do físico. Mas como cuida da sua mente? Como acolhe suas emoções? Como se relaciona? Ignorar ou reprimir sentimentos é como uma bomba-relógio: quando explode, arrebenta tudo à sua volta.
Síndromes como mensageiras
Quando tive meu primeiro burnout (síndrome do esgotamento na área profissional), há 14 anos, essa síndrome ainda não havia sido reconhecida pela OMS. Disseram que era apenas ansiedade por excesso de trabalho. Depois veio a síndrome do pânico. O que estava ruim, ficou pior. Aprendi que os diagnósticos não são inimigos. Eles são mensageiros, veículos de consciência.
Compartilho com vocês descobertas que fiz de formas bem dolorosas, através de diagnósticos. Despertei pela dor, e falo isso com o coração transbordando gratidão. Há pessoas que passam uma vida inteira recebendo sinais do próprio corpo, da mente, da própria vida — e não despertam. Há quem adoeça e não perceba a mensagem que está ali presente. Na maior parte das vezes, essas mensagens são ignoradas, apagadas com algum remédio que, como o próprio nome já diz, apenas remedia e não trata a causa. No entorpecimento, perde-se a mensagem, e logo o corpo buscará um novo caminho, potencialmente através de outro diagnóstico, chamando novamente para ser ouvido.
O diagnóstico é como um relatório: identifica um problema, uma condição ou uma situação, a partir da análise de sinais, sintomas, dados ou evidências. As síndromes mentais mais marcantes do século atual incluem depressão, ansiedade, burnout, transtorno bipolar, esquizofrenia e transtornos ligados ao uso excessivo de tecnologia. Elas refletem tanto condições antigas que se intensificaram quanto novos fenômenos relacionados ao estilo de vida moderno. Sob uma visão positiva e otimista, tudo tem uma razão de ser, já que está se manifestando. Com saúde mental, podemos transformar o que nos acontece em oportunidades de desenvolvimento. Essas síndromes surgem para nos lembrar do que está em desarmonia, para nos dizer: não se perca no trivial, não esqueça o essencial.
As síndromes são como relatórios finais da situação atual do nosso mundo, atualizados de tempos em tempos. Não são inimigas, não vêm para nos punir. Na minha humilde opinião: elas são veículos da consciência, como mensageiras. Surgem para nos lembrar do que está perdido, mostrando que as coisas estão em desarmonia, fora do lugar, fora de equilíbrio.

“A dor é mensageira. Veículo da consciência.
A dor não vem te punir, ela vem te lembrar.”
Ainda assim, o Brasil lidera posições de destaque mundialmente: é o país mais ansioso do mundo, ocupa o segundo lugar em diagnósticos de burnout e está entre os cinco mais depressivos. Os números crescem de forma assustadora em relação ao suicídio, que já é uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. As vendas de antidepressivos e ansiolíticos aumentam a cada dia. Mais de 70% dos brasileiros apresentam algum distúrbio do sono, um dos pilares primordiais da saúde mental.

Esses números crescentes são alarmantes. São resultados de anos de renúncia de si mesmo, da falta de contato com partes essenciais de nós, da pele para dentro. Muitos de nós fomos educados a não entrar em contato com o sentir, como se isso fosse sinal de fraqueza, reforçado por expressões populares como “homem não chora!”. Quando, na verdade, trata-se de nossa maior força: reconhecer nossas dores, pontos fracos e fortes, para então escolher como agir. Dessa forma, fazemos uso real do livre-arbítrio e assumimos o protagonismo da própria vida. O sentir é um portal poderoso de descobertas, convites permanentes para despertar.
Só escolhemos de forma consciente a partir do que temos entendimento, e para isso é necessário olhar, refletir e esmiuçar.
E, mesmo diante de tudo isso, muitas pessoas ainda não enxergam o que está diante dos seus olhos, em suas próprias vidas.
Pilares da engrenagem da vida

Para que a vida seja harmônica, precisamos cuidar dos pilares que sustentam essa engrenagem:
- Sono: respeitar horários e priorizar descanso de qualidade.
- Alimentação: hábitos saudáveis e regulares.
- Atividade física: movimento que libera hormônios do bem-estar.
- Lazer: hobbies, amigos, viagens, momentos de prazer.
- Cuidado com a mente: qualificar pensamentos e buscar práticas elevadas.
- Emoções: reconhecer cada emoção sem deixar que ela domine suas ações.
- Contato com a natureza: ambientes naturais restauram energia e acalmam.
A saúde mental deixou de ser apenas um tema individual: é pauta coletiva, social e política. Campanhas como o Janeiro Branco reforçam a importância da reflexão e do autocuidado. Vivemos em uma sociedade onde os desafios crescem a cada dia. Mas junto deles surgem oportunidades de viver de forma mais conectada e verdadeira. O autoconhecimento é o caminho para essa transformação. Ele nos desperta para quem somos — e para o crescimento daqueles ao nosso redor.
Em uma passagem da escritura sagrada indiana Bhagavad Gita, capítulo 6, versos 5 e 6, Krishna fala:
“Para aquele que conquistou a mente, ela é o melhor dos amigos; mas para quem fracassou neste empreendimento, sua própria mente continuará sendo seu maior inimigo.”
A mente é um instrumento poderoso para uma vida bem vivida e com sentido. Cabe a nós utilizá-la de forma lúcida e discriminatória, tornando-nos agentes conscientes de nossas escolhas, sem nos perder em identificações ilusórias com as experiências desta vida. Para isso, é preciso pausa, silêncio e afastamento, permitindo uma visão mais ampla e profunda. Não espere a dor bater à sua porta. Olhe para dentro e floresça.
Não precisa ser pela dor. Pode ser pelo amor.
E se precisar de ajuda, conte comigo: Rosane Ventura, especialista em saúde mental. Amém, Shalom, Axé e Namaste
