QUANDO A SIRENE NÃO DESLIGA

Nesta edição: o resgate do bem-estar em meio ao trauma e a combinação de terapias em grupo com o uso controlado de psicodélicos, para devolver o sentido a pacientes que já não viam saída.

O sofrimento psíquico costuma manter as pessoas em estado de alerta constante. Vivem alarmadas, temerosas, com pensamentos intrusivos, insônia e falta de disposição para empreender mudanças. A mente não descansa e o corpo não baixa a guarda. O estado de vigilância parece nunca desligar, e, pouco a pouco, vai corroendo a experiência de estar no mundo. Tudo perde a cor, as rotinas deixam de fazer sentido, os vínculos se tornam difíceis de sustentar. Quanto maior a intensidade do trauma, maior o risco de se perder a conexão com o outro e consigo mesmo. Esse alerta permanente diz muito sobre um corpo adoecido, que já não consegue reconhecer segurança nem mesmo quando o perigo passou.

A calma depois do alerta parte exatamente desse ponto. O documentário acompanha três bombeiros que passaram tempo demais vivendo sob sirenes reais. No início do filme, ficamos sabendo que o que chamamos de estresse pós-traumático já teve outros nomes, como “choque de artilharia”, “esgotamento nervoso” e “fadiga de guerra”. Termos que surgiram depois da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais, sempre tentando nomear um mesmo fenômeno: um sistema nervoso preso em estado de alerta permanente. O documentário também toca, ainda que de passagem, no boom farmacológico do século XX e na forma como a psiquiatria passou a se estruturar em torno da medicação.

Por um momento, A calma depois do alerta parece seguir um caminho mais histórico e analítico. Mas faz um deslocamento inesperado quando a narrativa se volta para um tema ainda pouco assimilado: o uso terapêutico de psicodélicos como possibilidade real de cuidado quando as abordagens tradicionais já não dão conta.

Quando a conexão volta a ser possível

A segunda parte do documentário nos apresenta o Roots to Thrive, um centro de tratamento nos Estados Unidos que propõe uma abordagem pouco convencional para o estresse pós-traumático. O programa combina acompanhamento terapêutico, trabalho em grupo e, em alguns casos, o uso cuidadosamente administrado de substâncias como a cetamina, dentro de um modelo de terapia assistida por psicodélicos. O que se observa é o efeito de uma brecha: a possibilidade de interromper, ainda que de forma temporária, o estado de alerta contínuo que nenhum tratamento anterior havia conseguido alcançar.

Nos relatos dos três bombeiros, o que mais chama atenção não é uma euforia repentina, mas algo mais sutil. A capacidade de sentir novamente. De se interessar por coisas simples. De restabelecer vínculos. De reconhecer a própria vida fora do trauma. Algo que a medicação tradicional e a psicoterapia convencional, sozinhas, não haviam conseguido acessar.

É impossível não se surpreender com a saída de um estado de imobilização, esvaziamento e perda de sentido a partir de um tratamento que, ainda cercado de tabu e debate na medicina contemporânea, parece produzir efeitos reais. A calma depois do alerta não ignora o fato de que o uso terapêutico de psicodélicos ainda é um campo em construção, controverso, longe de consenso. Mas também não fecha os olhos para o que está acontecendo diante da câmera.

No fim, o que o documentário sugere é que silenciar as sirenes não significa apagar o que foi vivido, mas encontrar condições para que o corpo deixe de reagir como se o perigo fosse permanente. Que algumas formas de cuidado não passam apenas por compreender o trauma, mas principalmente por recriar a possibilidade de segurança. Algumas sirenes não se calam sozinhas. E talvez o primeiro passo seja aprender a escutá-las de outro modo.


Neste texto e para ir além:

Documentário: A calma depois do alerta, na aquarius

Livro: Como mudar sua mente, de Michael Pollan


Cristhiane Ruiz

Cristhiane Ruiz é editora e psicóloga. Trabalha com palavras, escuta e a difícil arte de desligar sirenes internas

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