
Viver uma hiperexposição antes mesmo do café da manhã virou rotina.
Abrimos os olhos e antes do primeiro gole de café já atravessamos guerras, crises e tudo o que parece estar errado no mundo hoje. Começamos o dia com a mente navegando por lugares que habitam medo, insegurança e ansiedades ao ler as notícias ou rolar o feed de Instagram.
Onde tudo parece estar perdido, se olharmos pela lente certa pode ser que esta narrativa de medo e ódio comece a se desfazer e perder sentido.
Veja bem: alguns sábios no mundo tem o poder de fazer algo que eu gosto de chamar de transmissão. Eles transmitem mensagens tão poderosas que não passam só pela mente, mas são sentidas por todo o corpo e são capazes de transformar vidas. São palavras e atitudes que têm vida própria, atravessam a alma e nos reorganizam por dentro.
Da mesma forma que a superexposição à falta de virtude parece estar tão presente, nunca tivemos tantas oportunidades de nos expor a transmissões tão poderosas, virtuosas e transformadoras como hoje.

Assistir Amor Radical é receber uma dessas transmissões de Satish Kumar.
Nas primeiras cenas do filme eu me emociono e sou inundada com uma compaixão inesperada. Sou conduzida a uma sensação de que minha alma está em casa vendo isso. Como pode apenas uma cena fazer tudo isso com a gente? Como pode uma pessoa emanar toda essa luz?
Eu tive a oportunidade de jantar com Satish na vinda dele ao Brasil, pouco antes do lançamento do filme. Sentamos em círculo e o escutamos por algum tempo. Palavras que me provocaram esperança e me fizeram acreditar novamente que o mundo tem jeito.
“Como mudamos o mundo?” alguém perguntou. “Da mesma forma que eu fiz ao caminhar 13.000km a pé. Um passo depois outro e depois outro.” ele disse.

No filme, mais algumas pérolas de sabedoria. Como por exemplo enxergar o mundo através da lente da semente. Pois numa semente há esperança. E a lógica da semente é a mesma da ecologia profunda que nos dá a chance de reconhecer a potência e valor intrínseco de cada ser e sair do dualismo cartesiano que separa corpo de alma ou natureza de humanidade.
Assim podemos compreender que, como as abelhas, nós podemos pegar somente aquilo que precisamos e usar nosso potencial criativo para criar mais vida a partir da própria vida e, enfim, abandonarmos a veste de consumidores que depletam até o último canto da terra para seu próprio interesse.
Satish é um otimista que nos conta que podemos ser peregrinos ou turistas em nossa passagem pelo mundo.
Os peregrinos estão sempre em movimento e participando da vida como ela é. Têm o olhar de quem participa e não deseja mudar tudo, mas sim ser parte. E isso, por si só, já é o bastante.
Já os turistas chegam cheios de expectativas, com um olhar colonizador que não participa mas impõe sua verdade sobre aquilo que está vendo e vivenciando.

Satish me ensina que, para sermos peregrinos, precisamos mudar as lentes: não ver apenas com os olhos, mas com o coração. Ser fiéis aos nossos valores como ele, que atravessou o mundo a pé em nome da paz. E também respeitar esse chamado interno a ponto de sustentar rupturas e, se necessário, decepcionar expectativas externas, como fez ao deixar a vida monástica.
Em um mundo que nos convida a estar atentos às polêmicas, à polarização e à separação, na mensagem de Satish Kumar encontramos um convite único: começar a mudança dentro de nós. Quando nos transformamos por dentro, só então nos tornamos capazes de participar de um mundo mais coerente e pacífico.
Aceito este convite. Pois oportunidades assim falam baixo e o mundo é barulhento demais para ouvirmos.
Enquanto muitas são as chances que temos de esquecer do amor, Satish segue sorrindo e eu escolho sentar ao lado dele e olhar na mesma direção que ele está olhando. E você?
