
Quando terminei a direção de conteúdo dos Jogos Rio 2016, passei a acompanhar, com enorme inquietação, o crescimento da violência contra as mulheres. Os casos de feminicídio se tornavam cada vez mais frequentes e eu me perguntava: como chegamos até aqui? Essa foi a pergunta que deu origem a Raízes do Sagrado Feminino.
No início, imaginei que encontraria respostas na política, na sociologia ou na história. Mas, à medida que a pesquisa avançava, compreendi que precisava voltar ainda mais no tempo. Foi assim que cheguei às religiões que estão na base da nossa cultura.
Sempre enxerguei as religiões como um dos maiores patrimônios da humanidade. Elas organizam valores, constroem culturas, oferecem sentido à existência e moldam a forma como as sociedades compreendem o mundo. Nunca quis realizar um filme sobre a fé, muito menos questionar as crenças de nenhuma religião. Meu desejo era compreender como determinadas interpretações construídas ao longo dos séculos influenciaram o lugar da mulher na sociedade, e como esse legado ainda ecoa no presente.

Essa investigação se estendeu por anos e contou com uma equipe extraordinária, reunida em três núcleos de pesquisa que caminharam juntos durante todo o processo: um núcleo acadêmico, responsável pelo levantamento histórico e bibliográfico; um núcleo de pesquisa religiosa, formado por especialistas dedicados ao estudo das diferentes tradições espirituais; e um núcleo de pesquisa iconográfica e de imagens, que percorreu arquivos, museus e acervos em busca de pinturas, esculturas, manuscritos e documentos audiovisuais.

Paralelamente, ouvimos teólogos, filósofos, antropólogos, historiadores, cientistas, psicólogos e líderes religiosos de diferentes tradições, na construção de um filme plural, baseado no diálogo e no respeito às diferentes formas de pensar.

Ao longo dessa caminhada, fui tendo certeza de que a violência contra as mulheres não nasce de um único fator. Ela é resultado de uma construção histórica, cultural e simbólica extremamente complexa. Conhecer essas raízes não significa negar a importância das religiões, pelo contrário: significa reconhecer sua enorme influência na formação das sociedades e abrir espaço para uma reflexão que pode fortalecer tanto a fé quanto a convivência humana.
Agora, Raízes do Sagrado Feminino chega à Aquarius, plataforma da qual me orgulho de fazer parte. Depois da trajetória nos cinemas e dos debates que o filme promoveu, ele poderá alcançar ainda mais pessoas: famílias, educadores, jovens e comunidades. Esse sempre foi o meu maior desejo, que o documentário ultrapassasse as salas de cinema e continuasse vivo nas conversas, nas escolas, nas universidades e dentro de casa.

Espero que você assista ao filme com o mesmo espírito que nos guiou durante toda essa pesquisa: curiosidade, respeito e disposição para fazer perguntas. Porque foi fazendo perguntas que este documentário nasceu, e é fazendo perguntas que continuaremos construindo um mundo mais justo.