
O diretor Werner Herzog recebeu uma quantidade incrível de filmagens feitas pelo casal Katia e Maurice Krafft. Eles eram dois vulcanólogos que, com muita frequência, se colocavam em risco em nome de suas pesquisas. Katia e Maurice se aproximaram de vulcões em erupção e fizeram registros muito próximos dos rios de lava, dos fluxos piroclásticos, trovões, raios e da fumaça.
O que tinha um intuito científico ganha um contorno de arte. É inevitável. Quem olha para as imagens é arrebatado pelas cores fortes, pelas explosões, pela imensa força da natureza.

O trabalho de Katia e Maurice caminha pelas fronteiras. Suas imagens estão na fronteira entre a ciência e a arte. Sua pesquisa de campo está na fronteira entre a vida e a morte, entre o empírico e a transcendência.
Já na sequência de abertura, Herzog narra: “Este filme é em memória de Katia e Maurice Krafft… Quase tudo que vamos ver é filmado por eles. Há algo tão inspirador nisso, de tal modo nunca visto antes que me atraiu como cineasta. Eles perderam a vida juntos, filmando o poder dos vulcões. Esse é o legado deles. As vidas e a morte de Katia e Maurice estão documentadas em filmes e livros. E isso aqui não pretende ser outra biografia extensa. O que estou tentando fazer aqui é celebrar a maravilha das suas imagens.”
Existem ali várias fronteiras possíveis de se vislumbrar quando você olha as imagens capturadas pelo casal. E quando uma imagem dessa cai nas mãos de um cineasta como Werner Herzog, que é um dos diretores mais inventivos da história do cinema, temos todos os ingredientes para um filme memorável.
O Werner Herzog já tinha recebido filmagens incríveis em outros documentários anteriores como por exemplo, como O Homem-Urso. Neste filme, Herzog reflete sobre as imagens captadas pelo ativista Timothy Treadwell, um jovem que se embrenhou entre os ursos e foi devorado por eles. Timothy também era um homem que caminhava entre a vida e a morte, entre a poesia e a aventura. E quando esse material do Homem-Urso cai na mão do Herzog, ele faz um dos documentários mais conhecidos e mais comentados de todos os tempos.
Foi justamente numa entrevista na época de “O Homem Urso” que Herzog defendeu seu método: “Há pessoas que dizem que o documentarista deve ser discreto como uma mosca na parede. Errado. Isso é o que as câmeras de segurança fazem. Você tem que interferir, tem que arregaçar as mangas. Em vez de uma mosca na parede, eu prefiro ser uma vespa que é capaz de voar e picar”.

A peculiar e originalíssima visão de mundo de Herzog, que faz um contraponto brilhante em O Homem-Urso, também aparece neste filme sobre os vulcões. A narração de Herzog não é descritiva a partir das imagens que ele recebe. Ele inclui a visão de mundo dele no material que ele recebe e dá novos significados para aquelas imagens. Então, quando sua voz característica entra, sabemos que seremos levados a criar novos significados para as imagens que estamos vendo.
E muitas vezes, como no caso de O fogo interior, ele chama atenção para a poesia que está naquelas imagens. E ele eleva o casal de cientistas, de vulcanólogos, à categoria de cineastas. Então ele vai induzindo o nosso olhar de espectador para a beleza daquelas imagens, para a coragem daquele casal, para tudo que eles enfrentaram, para o risco que eles estão correndo.
Em outro momento, Herzog narra o seguinte: “Os Kraffts estão cada vez mais atraídos pela magnificência e o mistério do interior da Terra fluindo para a superfície… Eles não são mais vulcanólogos. São artistas que nos levam, a nós espectadores, para um reino de estranha beleza. Essa é uma visão que existe apenas em sonhos. Não há nada mais a dizer. Só podemos assistir admirados.”

Herzog transforma aquelas filmagens já esplêndidas em uma reflexão profunda sobre amor, vida, morte e os limites da ciência. Tudo isso se desenvolve em uma fronteira que o próprio cineasta habita: o espaço entre documentário e ficção. Através de narrações singulares, ele constrói filmes absolutamente originais, imprimindo sua marca pessoal mesmo ao trabalhar com material filmado por terceiros. O filme questiona: até onde a ciência pode ser vista apenas como coleta de dados em benefício da humanidade? Em que medida ela também é arte? Onde a ciência encontra a religião? Onde se confunde com o amor?

Também não é a primeira vez que Herzog realiza um documentário com temática científica. Em “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, por exemplo, ele registra pinturas rupestres pré-históricas, propondo reflexões científicas e filosóficas sobre arte, estética e civilizações antigas. O filme apresenta um recorte absolutamente singular, resultado da perspectiva única e extraordinária característica do cineasta.

Ele adota uma abordagem um pouco diferente do cinema direto, movimento que se caracterizou pela câmera estática e quase imperceptível, como uma “mosca na parede”. O principal representante dessa corrente era Frederick Wiseman, cuja proposta consistia justamente nessa presença discreta da câmera, buscando registrar os acontecimentos diante das lentes sem qualquer interferência ou intervenção no que estava sendo filmado.

E o Herzog é contra essa ideia da mosca na parede. Ele brinca que ele não é uma mosca na parede, ele é uma vespa que está ali voando, mas ele vai picar, ele vai interferir. Então, de novo, a ideia da fronteira é o Herzog expandindo a fronteira do documentário para trazer novos elementos, para trazer novas maneiras de pensar, novas maneiras de ver as imagens de arquivo, e novas maneiras de olhar para as pessoas que estão sendo retratadas ali no documentário.
“O Fogo Interior” consegue transcender a história de dois cientistas apaixonados. É um filme sobre um casal que ama intensamente não apenas um ao outro, mas também sua profissão de vulcanólogo, transformando-a em arte. Eles habitam fronteiras: entre vida e morte, amor e finitude, ciência e religião. E ninguém melhor que Herzog para capturar essa complexidade em filme, expandindo os limites entre todos esses territórios.
Neste texto e para ir além:

Documentário: O fogo interior, na aquarius
