Moda que não custa o planeta

Nesta edição: Como Amy Powney transformou uma crise de fé na indústria têxtil em uma coleção que prova que sustentável e acessível podem andar juntos

“Uma moda sustentável que não fosse horrível”

Às vezes a gente fala uns negócios sem pensar, sem raciocinar direito. Repetimos uns truísmos quase no automático, e, à medida que os repetimos, o negócio meio que se torna uma verdade autoevidente. Nada mais perigoso e intelectualmente preguiçoso do que esse tipo de hábito. Uma percepção, na verdade quase um lugar-comum, entre muitos de nós, é a ideia de que sempre custará mais caro qualquer coisa, da comida à moda, que venha acompanhada do adjetivo “sustentável” ou “orgânica”. Em Repensando a moda, documentário de 2022 dirigido pela cineasta canadense Becky Hutner, nos é apresentada uma perspectiva diferente dessa daí.

Acompanhamos a trajetória de Amy Powney, na época diretora criativa da Mother of Pearl, uma marca inglesa associada à alta costura, enquanto ela embarca na criação de uma coleção sustentável para ser lançada durante a Semana de Moda de Londres. Em suas palavras: “Meu objetivo era criar uma moda sustentável que não fosse horrível. Eu queria que fosse algo que você vestisse e se sentisse bem”.

Powney havia acabado de ser eleita “Jovem Estilista do Ano”, pela revista Vogue. Foi quando resolveu usar o capital social e prestígio recém-adquiridos na concepção de uma linha de roupas associada à Mother of Pearl. Sua ideia era ter o controle total do impacto social e ambiental de todas as etapas da cadeia produtiva: um controle que abrangesse da colheita do algodão usado nas roupas até a pegada de carbono produzida na logística da operação como um todo.

Um dos aspectos levados em consideração durante a criação da No Frills, a tal linha sustentável da Mother of Pearl, foi a ideia de rastreabilidade. Ou, dito de outra forma, a tentativa de encurtar o caminho percorrido entre os produtores/fornecedores e o consumidor final. Dessa forma seria possível não somente monitorar a aplicação de boas práticas, ambientais e trabalhistas, como também operar com uma margem de lucro mais reduzida, mas ao mesmo tempo adequada à remuneração dos fornecedores, por um lado, mas também a uma precificação que não ofendesse o bolso do consumidor, do outro.

Transparência e baixo impacto

Constatando que o uso de tecidos sintéticos oferecia uma rastreabilidade limitada, Powney optou por trabalhar com fibras naturais: algodão e lã, sobretudo. Daí em diante observamos sua busca por fornecedores capazes de identificar, e de comprovar, a origem de todos os componentes utilizados na produção das fibras que comercializavam. O nível de minúcia e comprometimento de Powney é incontestável. Na sua busca por fornecedores de lã, com transparência e baixo impacto ambiental, acompanhamos sua ida até a América do Sul, por exemplo.

De certa forma a No Frills representou um retorno de Powney ao fundamento mais básico de sua educação. E aqui não me refiro a escolas caras de moda, nem nada semelhante. Mas ao fato de que seus pais eram hippies com quem vivia no meio do mato, sem energia elétrica, apenas eólica. O gosto por questões ambientais já estava na vida de Amy desde a infância. “Meu pai instalou uma turbina eólica para gerar eletricidade e tínhamos um poço que ele mesmo cavou. Não podíamos simplesmente acender uma luz; só podíamos assistir TV se estivesse ventando”, recorda.

O documentário nos apresenta algumas estatísticas alarmantes. Se a indústria da moda fosse um país, ele estaria no top 3 dos maiores emissores mundiais de gás carbônico, juntamente com a China e os EUA. Outro dado assustador: atualmente compramos três vezes mais roupas do que comprávamos em 1980, mas as utilizamos pela metade do tempo que as utilizávamos há quatro décadas. Não bastasse isso tudo, e talvez esse seja o pior dado de todos, apenas 2% das pessoas que as confeccionam obtêm uma remuneração digna e adequada à sobrevivência.

Uma crise de fé

No Frills surgiu de uma crise de fé com a indústria da moda. Na época Amy cogitou desistir, porque se perguntava se era possível sanar os problemas gerados pela extensa cadeia produtiva do setor. No entanto, chegou à conclusão de que seria mais efetivo permanecer como uma insider, e apostar na promoção das mudanças necessárias, só que operadas de dentro das entranhas do monstro.

A ideia de Powney, com a No Frills, era focar em alguns princípios objetivos: reutilização, conserto e circularidade. Seu ativismo na moda dizia respeito, sobretudo, à promoção de um vínculo duradouro entre a roupa e o consumidor. Um aspecto interessante da coleção sempre foi a busca de certificações internacionais que, ao mesmo tempo em que agregassem valor ao produto, também servissem como ferramenta de transparência e educação. Nesse sentido, um exemplo interessante são as certificações disponíveis no setor de algodão orgânico. Amy optou por trabalhar com a GOTS, a Global Organic Textile Standard, um selo de confiança e reputação no setor.

Powney, no entanto, sabe que muitas vezes seu ativismo é tratado como uma afetação de classe, e um exercício fútil de esnobismo. Ela retruca, todavia: “Se você não pode comprar produtos melhores, por não ter as condições financeiras adequadas, ainda assim você pode comprar menos. Você também pode comprar peças vintage ou de segunda mão — hoje em dia, o que não falta é opção.”.

Seu trabalho, e militância, à frente da No Frills, é um exemplo claro de que, em primeiro lugar, não há setor produtivo que não se beneficie da adoção de práticas sustentáveis, e de que, por último mas não menos importante, sempre foi falsa a oposição entre essas mesmas práticas e a democratização da moda.


Gabriel Trigueiro

Gabriel Trigueiro é autor do livro “Cinéfilo nem é gente”, doutor em História Comparada pela UFRJ, colabora com críticas literárias e artigos de opinião para veículos como O Globo e Folha de São Paulo. Além disso, escreve quinzenalmente na newsletter https://nadadeerradonisso.substack.com

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