
Manifestações, simpatias, quadros de visualização: o otimismo está em todo lugar. Nas últimas semanas de 2025, me vi cercada por conteúdos sugerindo estratégias para tornar 2026 mais pleno, produtivo e feliz. A tática mais popular era o quadro de visualização – você escolhe um mural e registra nele todos os seus objetivos, de preferência com imagens. A lógica é simples: tem medo de dirigir? Monte uma colagem mostrando você ao volante, cruzando a Avenida Vieira Souto a 100 km/h, e pronto!
Realmente acredito no poder do otimismo, fé e determinação para alcançar o que a gente deseja. Mas acho importante considerar uma margem de realismo e não, isso não é pessimismo.

Enquanto eu assistia ao novo lançamento da Aquarius, o filme Reescreva a sua História, fiquei sensibilizada com um relato específico de um homem que se dizia pessimista por natureza e queria entender quais danos esses pensamentos negativos tiveram em sua vida ao longo dos anos.
O filme acompanha oito pessoas com enfermidades ligadas ao estresse que, ao longo de seis meses, reinventam suas narrativas internas por meio de práticas de cura não farmacológicas e, assim, transformam suas vidas.

Michel, “o pessimista”, é um desses participantes. Jovem, bonito e bem-sucedido, ele não conseguia aproveitar o presente pois sempre estava preso a fatos passados e preocupações futuras. Parece familiar, né?
Durante o workshop, ele participa de diversas dinâmicas de grupo para falar sobre seus sentimentos, tudo sempre mediado por especialistas. É muito comovente ver a pessoa se transformando apenas com a fala. Parece até magia, mas fica explícito na tela o poder de cura que falar em voz alta o que está na nossa cabeça possui.

A neurociência moderna revelou que a terapia literalmente muda o cérebro. Estudos de neuroimagem mostram que psicoterapia bem-sucedida pode reduzir a hiperatividade da amígdala (centro do medo), fortalecer conexões no córtex pré-frontal (regulação emocional) e modificar padrões de ativação neural associados a sintomas. Isso valida que “falar” não é apenas catarse superficial, mas um processo que reorganiza circuitos neurais. E, aos poucos, podemos ver a vida desses participantes tomando novos rumos ao reescreverem suas próprias histórias.

É interessante (e triste!) perceber que quase todas as histórias têm um ponto em comum: experiências vividas na infância que moldaram o futuro. O especialista em trauma, Dr. Gabor Maté, afirma que o trauma não é apenas sobre eventos catastróficos (abuso, violência), mas também sobre experiências sutis de desconexão emocional na infância. Para ele, trauma é “não o que aconteceu com você, mas o que aconteceu dentro de você como resultado do que aconteceu com você”.
Uma criança que não se sente segura para expressar suas emoções ou necessidades aprende a se desconectar de si mesma para manter o vínculo com os cuidadores. Essa desconexão, segundo Maté, está na raiz de muitos problemas na vida adulta: vícios, doenças crônicas, ansiedade, depressão.

Em Além da Dor, outro filme da aquarius que também explora a cura pela fala através de uma terapia de grupo, acompanhamos participantes com dores crônicas que já tentaram todos os tratamentos possíveis e nenhum conseguiu ser realmente efetivo.
E isso chamou a atenção de um pesquisador renomado: Yoni Ashar, da Universidade do Colorado. Ele topou testar essas alegações e o resultado foi um estudo científico amplamente publicado que reúne as tensões entre as abordagens médicas tradicionais e a neurociência de ponta, além de fortalecer cada vez mais a hipótese de que dores crônicas podem sim ser curadas através de uma abordagem terapêutica próxima e humanizada.

Não tem jeito: o cérebro confia no que a gente pensa. Ele registra nossas vivências e opera como uma câmera que guarda tudo o que já passou pela gente. E um dos aspectos mais fascinantes do cérebro emocional é seu viés evolutivo para experiências negativas.
Estudos demonstram que o cérebro reage mais intensamente a estímulos negativos do que a positivos. Uma crítica dói mais do que um elogio nos alegra. Uma experiência ruim marca mais profundamente do que uma boa.
Esse viés existe porque, ao longo da evolução humana, ignorar um perigo poderia custar a vida, enquanto perder uma oportunidade prazerosa era menos crítico. Nossos ancestrais que prestavam mais atenção às ameaças tinham maior probabilidade de sobreviver e transmitir seus genes. Carregamos essa herança neural até hoje.

Pesquisas mostram que precisamos de aproximadamente cinco experiências positivas para compensar o impacto emocional de uma experiência negativa. O cérebro literalmente dedica mais recursos neurais para processar e armazenar informações negativas.
Michel, “o pessimista” do filme Reescreva a sua História, conseguiu contornar essa armadilha biológica que todos nós temos e seguir com a sua vida, sendo um exemplo de que podemos ser protagonistas das nossas vivências.
Neste texto e para ir além:

Filme: REESCREVA A SUA HISTÓRIA, na aquarius

Filme: ALÉM DA DOR, na aquarius
