Um convite especial nesse Dia das Mães: reconheça e celebre as transformações que a maternidade te trouxe.

Nesta edição: um olhar sobre maternidade e as transformações que vêm com ela.

Minha primeira experiência

Era 10 de novembro de 2016. A última consulta antes do parto, e a médica disse: “Julia, não há sinais de evolução de parto normal. Teremos que agendar a cesárea para o dia 17. É o nosso limite”. Depois disso, silêncio sepulcral. Não porque eu estava obcecada por um parto natural, na banheira e sem anestesia. Não era nada disso. Eu só queria que fosse no tempo dela.

Fui pra casa em silêncio. Desliguei o celular (quem me conhece sabe que isso é algo quase que impossível). Chorei um choro profundo, com lágrimas, coriza e soluço. Daqueles que doem o peito, sabe? Daqueles que te deixam com os olhos inchados por horas. E falei em voz alta “filha, eu não quero nada de você, eu só quero que você escolha a data que vai vir ao mundo. É só isso”. Acordei com a minha mãe socando a porta da minha casa, porque eu sumi, o celular estava desligado, e ninguém sabia de mim. Ela trabalhava perto, então não pensou duas vezes em aparecer por lá. Abri a porta e ela estava esbaforida de preocupação: “Como você desliga o celular e dorme a tarde nessa altura do campeonato, quase parindo? Quer me deixar maluca?”. Hoje, quase dez anos depois, eu a entendo, e confesso que faria o mesmo, ou até pior.

No dia 11 de novembro, dia seguinte, às quase 07h da manhã, levanto da cama para mais uma ida ao banheiro e, adivinhem? Minha bolsa estourou. Como se fosse uma resposta que dizia “mãe, eu escolhi a data”. E ali a minha jornada na maternidade, de fato, começou. Bella chegou, e me tornei mãe. A maior e mais profunda transformação da minha vida. Que desencadeou tantas outras. E é delas que quero falar.

Convido você a, nesse dia das mães, celebrar as transformações que aconteceram na sua vida depois da maternidade. Aquelas que talvez você nem tenha se dado conta, mas se saiu tão bem. Tão corajosa. Tão maior. Vou falar das minhas, para que você perceba as suas, combinado?

Trabalho

Fui demitida quando tinha acabado de voltar da licença maternidade. Mas fui contratada pela empresa que estou até hoje, quando a minha filha tinha 8 meses. Quando liguei pra minha mãe, aos prantos, contando da demissão, ela disse: “graças a Deus foi só uma demissão e não um acidente ou assalto. Fica tranquila, quando uma porta fecha, abre outra muito melhor”. E, mais uma vez, minha mãe tinha razão, eu não imaginava quantas portas se abririam a partir dali.

Trabalhei, fui feliz, fui promovida mais de uma vez, vivi muitos momentos que exigiram finais de semana, horas extras e até madrugadas. Ser mãe não me impediu de nada.

Fiz uma transição de carreira porque fiz a cobertura da licença maternidade de outra mulher. Fui com medo mesmo, ou cheia de coragem, como eu sempre digo. Aprendi um monte de coisas, participei de projetos importantes, pra mim e pra tanta gente. Depois, topei outro desafio cobrindo mais uma licença maternidade. Aprendi, cresci e amadureci. A minha maternidade e a maternidade de outras pessoas trouxeram transformações maravilhosas para a minha vida.

Separação

No meio disso tudo, vivi uma separação em 2019. E, dessa vez, não era só sobre recomeçar. Era sobre recomeçar com uma filha, sobre deixar pra trás o que eu tinha planejado. Era sobre o sentimento de que eu estava tirando a família dela. Um mar de sentimentos e a responsabilidade de não deixar nada respingar na infância dela. Era sobre enfrentar um luto, reorganizar a vida prática, emocional e financeira ao mesmo tempo, sem pausa, sem respiro, sem manual. Eu sabia que era necessário, mas doía mesmo assim.

Eu precisei recomeçar enquanto tudo continuava funcionando. Enquanto continuava acordando cedo para levar ela pra escola, para ir ao trabalho, juntava meus próprios caquinhos.

A maternidade não me poupou da dor. Mas me deu um motivo maior do que ela. Me deu direção, me deu força quando eu achei que não tinha mais. Vivi um período nebuloso, sim. Um período que hoje eu classifico como um desalinhamento entre o que eu acreditava, e o que eu fazia, sendo muito honesta, e, aos poucos, a vida foi se reorganizando. No meio disso tudo eu até saltei de paraquedas, mesmo com vontade de desistir quando o avião já estava lá em cima. Aprendi que em certas coisas não dá mais pra voltar atrás. E eu me joguei, não só da janela do avião, mas de tantos outros lugares. Lugares de medo, de dúvida, de incerteza. E falando em certeza, temos certeza do que mesmo, hein? A gente, na maioria das vezes, só precisa fechar os olhos e pular.

Minha segunda experiência: maternar sem ser mãe

Depois de algumas tentativas rasas de me relacionar com algumas pessoas, impus uma regra pra mim mesma: a partir de agora só vou me relacionar com quem tem filhos. Afinal, são pessoas que vão entender meu universo. E não deu outra. Falando em universo, ele rapidamente atendeu ao meu pedido, e me tornei madrasta da Maria. Apesar do meu querer, não foi fácil. Não é fácil. Muitas vezes me senti perdida em tantos sentimentos que muita gente vive, e ninguém nomeia. Mas outra frase que me guia é essa: “é justo que muito custe, o que muito vale”. E vale tanto.

Sendo madrasta da Maria, aprendi, entre tantas coisas, que o “ma” de madrasta, não vem de maldade como adoram dizer por aí, mas deriva do latim matrasta (“mulher do pai”), que se origina de mater, e significa “mãe”. Espero que todos saibam, mas gosto de repetir. E não aprendi isso só no conceito, aprendi na prática também. O ato de maternar não é exclusivo da mãe. Ele está no cuidado, nas ações do dia a dia, na proteção, na educação, no olhar, na percepção. E eu tenho plena convicção que, como madrasta, eu materno a Maria. E esse maternar também trouxe profundas transformações pra minha vida.

Mãe de novo: bem-vinda, Flora

Como se a vida gostasse de me lembrar, mais uma vez, que ela é feita transformações, eu me tornei mãe de novo. A Flora chegou de uma maneira inesperada, mas muito amada. Nós não planejamos mais um filho, mas ela veio. Ela é o nosso “oba, pizza” todos os domingos quando o interfone toca, declarando que a nossa família tem a tradição de pedir pizza aos domingos. Coisa que só uma família estruturada faria. É a carinha feia com ciúmes do beijo da mamãe e do papai, coisa que só uma criança que tem pais que se beijam toda hora faria.

Não sei se eu merecia tanto, com certeza não. Eu nem me acho uma mãe tão boa assim. Eu não gosto de brincar, nem de rotina regrada. Eu gosto de tempo sozinha, de acordar tarde. Adoro quando elas ficam com as avós ou com a babá. Mas a segunda filha é diferente. Bem diferente. Com ela veio uma maternidade mais consciente, muito mais segura, mas também mais complexa. Porque agora eu não era só mãe. Eu era mãe, madrasta, parceira, mulher, profissional, tudo junto, intenso e misturado ao mesmo tempo.

Depois da chegada dela, senti que eu precisava compartilhar as minhas experiências numa família reconstituída com outras pessoas. Senti que o que eu estava aprendendo, poderia apoiar outras famílias. Senti que eu tinha em mãos a informação que eu tanto senti falta no início dessa experiência. E, o que começou como uma página no Instagram no final de 2024, virou livro, livro-caixinha, rede, palestra, roda de conversa, se tornou o que eu resolvi chamar de uma plataforma de conteúdo, conexão e impacto.

Uma plataforma que nasceu da minha história, e que hoje alcança tantas outras. Que transformou a minha vida. E que, todos os dias, me lembra que a maternidade não me deu só filhas e enteada, mas me transformou em quem eu sou hoje.

Que a gente siga sendo impactada e transformada pelas “multi” maneiras de maternar. Que a gente reconheça sempre e celebre todas essas transformações que a maternidade trouxe pra gente, e muitas vezes, no automático da vida, nem percebemos.

Feliz Dia das Mães!


Julia Kacurin

Julia Kacurin é mãe da Bella e da Flora, e madrasta da Maria. Comunicadora, escritora e fundadora do Multi Maternidade, plataforma de conteúdo, conexão e impacto para famílias reconstituídas. A partir da sua vivência real, compartilha reflexões, rotina e caminhos possíveis para relações mais leves, conscientes e possíveis dentro dessa nova configuração familiar tão vivida, mas tão pouco falada

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