
No documentário Irvin Yalom: De frente para o Sol, dirigido por Eva Fouquet, vemos o psicoterapeuta e escritor já idoso, falando devagar, escolhendo as palavras com cuidado. A câmera não se apressa. Permanece e observa. O tempo é visível no corpo, na respiração, nas pausas. Ali, a morte não é conceito. É horizonte próximo.
Contudo, a produção não se limita à finitude. Ela percorre, com uma franqueza rara, as camadas formadoras de Yalom: família, infância, formação emocional e intelectual. Não há amarras na forma como ele fala dos progenitores, do ambiente em que cresceu, das limitações e dos impulsos que o moldaram.
Há algo particularmente tocante quando ele aborda o pai. Um imigrante, dono de mercearia, homem prático, inserido numa rotina de sobrevivência e, ao mesmo tempo, figura fundamental na formação do leitor que Yalom se tornaria. A leitura surge ali não como ornamento cultural, mas como abertura de mundo.

O filme deixa claro que os livros foram, para o jovem Yalom, uma forma de expansão em uma realidade em que se encontrava isolado de pessoas de sua idade, de amigos de verdade. Um modo de sair dos limites concretos da infância. A livraria, a biblioteca, os romances, tudo aparece como espaço de liberdade intelectual e emocional.
Antes de ser terapeuta, Yalom foi leitor. Antes de teorizar sobre a morte, mergulhou na literatura. Essa origem importa, porque revela que sua escrita não nasceu apenas da atividade clínica, mas de uma intimidade precoce com os livros como refúgio e como descoberta.
A escrita, uma extensão da vida
Por isso, quando abrimos Uma hora de conexão, escrito por Yalom com o filho Benjamin, percebemos que escrever nunca foi, para ele, atividade paralela ao trabalho profissional, mas continuação dele e daquele menino que encontrou nos livros uma forma de atravessar limites.
No documentário, ele aborda a escrita como um gesto de transmissão. Nos romances e ensaios, as pontes entre filosofia e vida concreta. Yalom transforma Nietzsche, Schopenhauer, Espinosa em personagens, não para simplificá-los, e sim, para torná-los habitáveis. A leitura, nesse sentido, torna-se encontro.

Se a sessão é limitada pelo tempo, o livro permanece. Se o terapeuta envelhece, a palavra escrita atravessa gerações. Há algo de profundamente consciente nisso no documentário: Yalom sabe que sua presença física é finita, por isso, a escrita é sua forma de continuidade.
Em Uma hora de conexão, essa consciência é ainda mais palpável. Há algo de testamentário na escrita. Cada frase parece carregar a intenção de dizer o essencial enquanto há tempo. Escrever é enfrentar a morte; ler é aceitar a companhia.
Neste mais recente título lançado no país, o Dr. Irvin D. Yalom compartilha uma sequência de encontros terapêuticos que revelam, com delicadeza e intensidade, tanto a beleza quanto o desamparo da condição humana. Em sessões únicas, nas quais cada palavra carrega peso e intenção, o psiquiatra transforma o aqui e agora em um território de descoberta e cuidado, reiterando que a relação entre médico e paciente pode ser, por si só, o mais potente dos remédios.
“Eu trabalho com pacientes e mergulho no mundo interno deles, mas minha mente está sempre funcionando como escritor.”
Dr. Irvin D. Yalom

A ética da presença: da vida à clínica
Ao assistir ao filme, disponível na aquarius, e depois ler Uma hora de conexão, publicado pela HarperCollins Brasil, percebe-se que há uma coerência rara entre o homem e a obra.
No livro, encontramos um terapeuta idoso, viúvo, confrontando a ausência da companheira de uma vida inteira. No filme, vemos o próprio Yalom atravessado pela memória e pelo luto. O que na literatura é elaborado, na imagem é vivido. É nesse ponto que emerge a ideia das sessões únicas.
Trabalhar como se cada encontro pudesse ser o primeiro e o último não é apenas técnica clínica, é postura existencial. Quando não há garantia de continuidade, a palavra importa, o silêncio ganha peso, a pergunta precisa ser necessária e a intervenção nasce da escuta verdadeira.
A sessão única desmonta a ilusão do “depois”. Depois eu digo. Depois eu explico. Depois eu amo melhor. Mas e se não houver depois?

Em De frente para o Sol, essa consciência está no modo como ele fala. Em Uma hora de conexão, ela é dramatizada. Em ambos, o tempo é comprimido. A finitude intensifica o presente.
Quando a teoria encontra a própria história
Sempre vi a terapia como algo importante, mas houve dois momentos em que ela deixou de ser importante para se tornar essencial. O primeiro foi na infância, quando o divórcio dos meus progenitores tornou difícil, quase impossível, a relação com meu pai. Havia sentimentos que eu não sabia nomear. Nas sessões, pela primeira vez, alguém escutava sem tomar partido. Ali, eu podia falar sem precisar proteger ninguém. Não lembro de todas as palavras, mas sim, da sensação de que o encontro importava. De que o tempo desacelerava.
Anos depois, já adulto, atravessei meu próprio divórcio. E descobri que o momento da separação não é apenas circunstancial, ele atinge identidade, futuro, pertencimento. Voltar à terapia não foi fraqueza; foi sobrevivência emocional. Havia sessões em que cada palavra parecia decisiva, como se algo pudesse se reorganizar ali, naquela hora, e como se aquela fosse, simbolicamente, uma sessão única.

Talvez seja por isso que Yalom me toque tanto. Ele fala da morte, mas o que está em jogo é o encontro. A presença radical e a recusa de adiar o que precisa ser dito.
Em dois momentos marcantes de minha vida, o que me sustentou não foi a promessa de um processo interminável, mas a qualidade do vínculo. Alguém ali, inteiro, escutando como se aquilo importasse, porque, na verdade, importava. Ao ler Yalom, sinto algo semelhante ao que experimentei na terapia: a sensação de que alguém nomeia o que é difícil.
Entre literatura e imagem: coerência rara
Em Uma hora de conexão, a vulnerabilidade é organizada pela linguagem. No filme, pelo corpo. No livro, a finitude é narrada. No documentário, visível. No entanto, o núcleo é o mesmo: a coragem de permanecer.
A morte é inevitável. O tempo é finito. A autenticidade não pode ser adiada. O amor não termina; transforma-se. A presença pode reorganizar uma vida. Dr. Irvin D. Yalom não oferece consolo metafísico, mas companhia, na sessão, na página, na tela.
E talvez a trajetória do psicoterapeuta, revelada sem medo no documentário, mostre que tudo começou muito antes da clínica; com família, com livros, com a descoberta de que a leitura pode abrir mundos.

Diante do sol, ele não fecha os olhos. Escreve… e nos convida a ler. Essa é, talvez, a verdadeira hora de conexão.
Neste texto e para ir além:

Documentário: Irvin Yalom: De frente para o Sol, na aquarius

Livro: Uma hora de conexão, de Irvin D. Yalom e Benjamin Yalom

Livro: O ano do pensamento mágico, de Joan Didion
