
O lugar garantido é o corpo. A frase me veio de novo numa tarde de domingo, enquanto embalava minha filha mais nova no colo. Aninhada em mim e entregue ao meu balanço na bola de pilates, viramos uma só. A cadência do movimento a faz dormir em poucos minutos, enquanto reflito sobre o tal lugar garantido que temos. Meu corpo para ela, o corpinho dela no meu, o nosso ritmo, cheiro, calor. É garantido, mesmo.
A primeira vez que li essa frase foi numa bandeira da artista visual Mana Bernardes, e ela me acertou feito flecha. O lugar garantido é o corpo, dizia o tecido, em letras que pareciam dançar. Era junho de 2019 e eu havia acabado de me inscrever num workshop de “GaGa Movement” que aconteceria naquele final de semana por ocasião do Cena Brasil Internacional — festival do qual o Luiz Felipe Reis, grande amigo (e, hoje, curador da aquarius), era curador.

Gaga é uma linguagem de movimento criada pelo israelense Ohad Naharin, coreógrafo da Batsheva Dance Company, da qual sou fervorosamente fã, focada na exploração sensorial e no prazer do movimento e conexão corpo-mente. Fazia anos que eu não pisava numa sala de dança. Mais precisamente, cinco. Com uma gravidez e o nascimento do meu primeiro filho no meio, aquele hiato parecia bem maior do que meia década. Será que eu daria conta? A frase na bandeira, porém, soou como um chamado.

Ao entrar na sala naquela manhã, senti um frio na espinha. Apesar do workshop não estar anunciado apenas para bailarinos, mas para quem se interessasse por movimento num geral, senti, num primeiro momento, que não pertencia mais àquele lugar. Estava parada há anos, me sentia enferrujada, acima do peso, enfim. Dei espaço para a velha conhecida auto-sabotagem. Pensei em sair de fininho, antes do professor (um bailarino da Batsheva) chegar. Mas fiquei. Foi começar o aquecimento, com uma soul music cheia de groove, todos em círculo, para eu rapidamente entender que precisava estar ali.
Nas três horas seguintes, dancei ininterruptamente, sem cansar. Guiados por simples direcionamentos, todos se movimentavam do seu jeito. A aula não tinha espelho, nem passo certo, tempo certo, estética certa. Era para usar a técnica que cada um possuía a favor da fluidez do movimento. A ausência de pausa provocava um verdadeiro transe. Ao fim, na desaceleração daquela coreografia sem partitura, embalada por “Todo homem” — e com a ajuda do agudo abissal do Zeca Veloso —, chorei catarticamente enquanto tentava parar o meu corpo. Um corpo que não se movia mais como aquele dos vinte e poucos anos nas salas de ensaio de ballet clássico ou dança contemporânea. Um corpo que tinha outra profundidade e eu me dava conta naquele segundo. Todo homem precisa de uma mãe, eu era mãe de um menino, e eu dançava uma transformação. Mas sobretudo, dançava um reencontro comigo.

A minha história com a dança começou bem cedo. Aos seis anos, minha mãe me colocou numa espécie de dança moderna para crianças. Sem uniforme, coque ou sapatilha. Achou que eu fosse adorar. Como toda mãe que se preocupa mais com o lúdico da atividade do que com o aprendizado da técnica em si, aquilo estava ótimo, e deveria bastar. Mas não para mim. Alguma coisa me incomodava. E não era a dança.
A música, me lembro, vinha de uma fita k7 e era interrompida no meio, sem muita preocupação com os inícios e términos. Os cabelos das crianças ficavam soltos, ou num rabo-de-cavalo desgrenhado, os pés descalços. Eu quis ir embora. Minha mãe, então, me levou à Dalal Achcar, academia de ballet hipertradicional do Rio. Achou que eu fosse sair correndo daquela disciplina toda. E eu me apaixonei.
Foi bater o olho na sala com piso de madeira, nos espelhos enormes, na barra que circundava as paredes, na pianista tocando ao vivo, no uníssono impecável das meninas uniformizadas com o collant azul claro, meia-calça rosa e coque esticado, para ter certeza de que era ali que eu queria estar. E ali dancei, todos os dias, até os 18 anos.
Era como se eu, enfim, tivesse encontrado o meu lugar no mundo. Meu castigo em casa, caso houvesse, era não ir ao ballet. A Dalal rapidamente tinha se tornado minha segunda casa. Nesses 13 anos, não houve um dia sequer em que o prazer da dança não tenha me atravessado. Era fechar a porta da sala, sentir o frio do ar-condicionado, escolher o lugar na barra (que depois se tornou cativo), para entrar na mais profunda meditação.

Quando me formei ali aos 18, no curso profissionalizante que segui, Dalal me perguntou no palco, diante da plateia lotada antes do espetáculo, o que a dança significava para mim. Lembro de segurar o microfone e me emocionar, dizendo que um dia dançando era um dia em que os problemas, quaisquer que eles fossem, sumiam por algumas horas. A presença do corpo num estado meio divino, acho.
Depois disso, mergulhei na dança contemporânea decidida a ser bailarina profissional. Entrei para a escola da Deborah Colker, que abria na Glória. Novo mundo, novos amigos, a liberdade do cabelo solto e da ausência de sapatilhas — agora com técnica e algum domínio (risos). Precisei da disciplina para aproveitar a liberdade. Como sempre, um prazer imenso. Tranquei a faculdade de Comunicação que mal havia começado para viver aquilo e nada mais. Até os 22, dancei de segunda a sábado, das 10h às 22h.
Até que, em algum momento, o prazer foi dando lugar a um sentimento estranho, de angústia por tentar atingir alguma meta irreal, alguma exigência insensível de alguém — e minha. Para que dançar se não se está sendo feliz — e unicamente feliz — dançando? Meu pacto com a dança era o percurso, e não o fim.

Decidi parar. Precisei dar um corte seco. Uma separação radical. Um divórcio quase litigioso. Sem recaídas ou diminuição de ritmo. Para conseguir, precisava me afastar de vez. Depois, claro, como nos grandes casos de amor, o afastamento foi dando lugar à saudade. À avassaladora saudade. E ao inevitável e perigoso desejo do reencontro. Desde então, venho flertando de novo com ela, numa transmutada relação que consegue novamente se permitir o prazer e nada mais.
Nesses anos todos afastada de uma sala de aula, ou de uma prática regular, me dou conta de que, apesar da distância da dança, ela nunca deixou de estar comigo. Tenho certeza de que pude viver duas gravidezes plenas e saudáveis por conta dos anos de ballet, e gosto de acreditar que se tenho algum ritmo na escrita, por exemplo, é graças aos allegros, adagios e codas. A dança me visita todas as noites em que nino meus filhos, conto histórias com as mãos e, sobretudo, nos meus sonhos.
Dia desses, sonhei que experimentava roupas novas para uma aula com um professor renomado. Me olhava no espelho e gostava do que via. Quem sabe um presságio? O lugar garantido é o corpo, sim. E o meu, dança.
Neste texto e para ir além:

Documentário: Pina, na aquarius

Documentário: As Índias Galantes, na aquarius

Documentário: Gaga, o Amor pela Dança, de Tomer Heymann
