O seu botão de emergência nunca desliga? Eu vivi isso!

Nesta edição: Tem gente que vive como se uma sirene estivesse ligada o tempo todo e nem se dá conta.

Acorda já cansada, passa o dia em estado de urgência, dorme mal e, ainda assim, acredita que isso é normal. A vida virou corrida, produtividade, excesso. A exaustão foi naturalizada. Estar em alerta o tempo inteiro deixou de ser percebido como um problema e passou a ser quase um modo de funcionar.

Assistindo ao documentário A Calma Depois do Alerta, foi impossível não pensar nisso.

O filme acompanha pessoas que viveram traumas intensos, situações limite que marcaram profundamente o corpo. São histórias duras, que ajudam a entender o que acontece quando o sistema nervoso não consegue mais reconhecer segurança.

Mas, enquanto eu assistia, o que mais me atravessava não eram apenas essas experiências extremas. Era o estado.

Aquele corpo que não desliga.
A mente que não descansa.
A sensação de que o perigo ainda está presente, mesmo quando já passou.

Eu vivi isso.

Durante os anos em que convivi com a fibromialgia, o que mais me marcava não era só a dor. Era esse estado constante de alerta. Um corpo sempre preparado para reagir, sem conseguir relaxar.

E isso me fez pensar em algo que vejo todos os dias.

Nem todo trauma chega como um grande evento. Muitas vezes, ele se constrói na repetição. Nas relações que não oferecem segurança. Nos ambientes em que o corpo precisa estar sempre atento para se adaptar.

É o que chamamos de trauma de desenvolvimento.

O sistema nervoso aprende com o tempo. Aprende a antecipar, a se proteger, a se manter em alerta. E, pouco a pouco, perde a referência do que é estar seguro.

Quando isso acontece, a dor deixa de ser apenas um sintoma. Ela passa a fazer parte do estado do corpo.

Na fibromialgia, isso é muito evidente.

Não é só o corpo que dói.
É o corpo que não consegue descansar.

O documentário traz caminhos importantes, inclusive abordagens que ainda estão sendo estudadas. Mas teve algo ali que me chamou atenção de forma especial: o que acontece quando essas pessoas estão juntas.

A força do grupo terapêutico.

O que muda quando alguém percebe que não está sozinho.
Quando escuta a história do outro e se reconhece.
Quando começa a baixar a guarda, ainda que por alguns minutos.

O sistema nervoso não aprende sozinho.
Ele aprende nas relações.

E também se regula nas relações uns com os outros.

Isso eu vejo todos os dias no meu trabalho.

Mulheres que chegam se sentindo sozinhas, confusas, achando que o corpo está falhando. E, aos poucos, no encontro com outras histórias, com outras mulheres que vivem a mesma realidade, algo começa a mudar.

O corpo começa a confiar um pouco mais.

Não porque alguém explicou tudo perfeitamente.
Mas porque, pela primeira vez, aquele ambiente não exige, não invalida, não pressiona.

Acalma.

A Calma Depois do Alerta não vem de uma decisão. Não vem apenas de entender o que aconteceu. Ela começa quando o corpo, pouco a pouco, volta a sentir segurança.

E isso leva tempo.

Se você vive com dor, se sente em alerta constante, ou percebe que seu corpo não consegue descansar, talvez não seja apenas cansaço.

Talvez seja um sistema nervoso que aprendeu a sobreviver assim.

E que agora precisa aprender outra forma de existir no mundo.

O documentário A Calma Depois do Alerta é um convite a olhar para isso com mais profundidade. A compreender o que está por trás desse estado e, principalmente, a abrir espaço para algo que muitas vezes parece distante: a possibilidade de segurança.

Vale assistir com atenção. Algumas respostas não chegam como explicação, mas como reconhecimento.


Juliana Rodrigues

Juliana Rodrigues é professora, bióloga e terapeuta. Viveu a fibromialgia, e hoje vive e ensina a Fibromialgia Sem Dor.

Busca