
A missão Artemis II me deixou hiperfocada. Eu sou apaixonada pelo céu, seus mistérios e sua força. E não é de hoje que me chama a atenção as experiências de unidade que muitos astronautas relatam ao verem Terra ‘de fora’, que levam o nome de Over Effect. Isso porque eu sempre as relaciono com as experiências de dissolução do ego que navegantes da consciência dizem viver quando estão sob o efeito de alguma biocultura, como a ayahuasca e os cogumelos, ou de algum psicodélico, como o LSD e o DMT, ou até mesmo em processos de meditação profunda.
Quem também apontou recentemente para esse tipo de percepção é o astronauta Victor Glover, integrante da missão Artemis II, ao destacar a experiência de unidade ao olhar a Terra como um todo e dizer que “somos um só povo”, independentemente de origem ou aparência.

Mas o que me interessa não é provar que ambas as experiências são a mesma coisa e nem forçar uma ponte conceitual. O que me interessa é o fato de que, em contextos tão distintos, surge um mesmo tipo de ruptura na forma como a realidade é percebida e o como isso gera impactos transformadores na vida de muitas pessoas. É o momento que sentimos que o “eu” deixa de ser tão sólido, tão separado e tão central. Ele não desaparece completamente, mas perde a rigidez que normalmente sustenta a forma como a gente organiza a vida.
Nesses quase 10 anos como daimista e ayahuasqueira, eu já vivi esse tipo de estado muitas vezes. O suficiente para reconhecer o padrão quando ele aparece em outros relatos, mesmo quando o contexto é completamente outro. Existem características nessas experiências que não dependem do caminho que levou até ela. Inclusive, relatos de EQM (Experiência de Quase Morte) figuram no mesmo rol de experiências transcendentais.
Por isso, quando astronautas descrevem ver a Terra de fora, sem fronteiras e sem divisões e falam de uma sensação imediata de unidade, isso não me soa distante. Soa bastante familiar. Não porque seja a mesma coisa que eu vivo, mas porque aponta para um tipo de percepção que também aparece em estados não ordinários de consciência aqui no chão mesmo.
Ao infinito e além

O astronauta Edgar Mitchell, da missão Apollo 14, descreveu sua aventura no espaço como uma “consciência global instantânea”, acompanhada de “uma sensação intensa de interconexão”. “Uma explosão de consciência… uma epifania”, afirmou o astronauta.
Anos depois de participar da missão e ter vivido o Overview Effect, Mitchell fundou o IONS (Institute of Noetic Sciences), que visa investigar esse tipo de experiência dentro de um enquadramento científico. De acordo com o site do IONS, o projeto busca “compreender melhor uma verdade atemporal: a humanidade está profundamente interligada”.
Já Ronald Garan, que participou da missão STS-124, fala sobre perceber a Terra como um sistema integrado, onde as divisões deixam de fazer sentido. Chris Hadfield, comandante da Expedition 35, também descreve uma mudança concreta na forma de perceber pertencimento ao olhar o planeta como um todo. Rusty Schweickart, da Apollo 9, disse: “Você passa a se identificar com aquilo, e não mais apenas consigo mesmo”.
Não existe evidência científica de que essas experiências sejam equivalentes às induzidas por substâncias, práticas contemplativas ou EQMs. Os mecanismos neurobiológicos são diferentes, os contextos são outros e as condições são incomparáveis.E é bom deixar isso claro para evitar simplificações.
Mas existe um ponto de contato reconhecido dentro da psicologia e das ciências da consciência: todas podem ser descritas, em maior ou menor grau, como experiências transcendentais. Estados em que o senso de identidade deixa de estar restrito ao corpo ou à narrativa individual e passa a incluir algo mais amplo, mesmo que temporariamente. E é a partir daqui que a conversa começa a sair do campo do relato e entrar no campo das consequências.
A experiência não garante transformação
Essa talvez seja a parte menos interessante de contar e a mais importante de falar. Isso porque quando essa sensação de separação vai passando, existe um impacto posterior. Às vezes sutil e às vezes desestabilizador e até perturbador. Nem sempre é confortável, divinal, amorosa ou integrável no ritmo da vida cotidiana.
O próprio caminho do Edgar Mitchell aponta isso de forma indireta. A experiência foi profunda o suficiente para redirecionar a vida dele para a pesquisa. Mas isso não se traduziu automaticamente em transformação coletiva, nem em consenso científico, nem em uma reorganização concreta das estruturas que sustentam a forma como o mundo funciona.
Existe uma narrativa muito difundida, especialmente em certos círculos espirituais, de que experiências de dissolução do ego levam inevitavelmente a uma vida mais consciente, mais ética, mais alinhada. Porém isso não se sustenta quando olhamos para a realidade material.
Eu já vi, em mim e em outras pessoas, o quanto essas experiências podem ser ao mesmo tempo profundamente marcantes e, ainda assim, insuficientes por si só para mudar nossos rumos, quiçá os da humanidade. Elas não reprogramam automaticamente padrões e não eliminam as contradições e as tensões da vida humana, mesmo que criem fissuras importantes por onde ondas de consciência podem entrar e nos transformar e, quem sabe, transformar o coletivo. Porém, essa mesma fissura pode ser tanto um ponto de reorganização interna quanto um ponto de fuga.
Quando um astronauta olha para a Terra e não vê fronteiras, isso não muda automaticamente os sistemas políticos, econômicos ou sociais e seguimos vivendo as mazelas da vida, das desigualdades, das violências . A experiência não se traduz sozinha em estrutura. Ela precisa, veja só, da gente. Impossível delegar essa função.

Quando alguém vive um estado em que o “eu” deixa de ser o centro ‘duro’ da experiência, isso também não redefine, por conta própria, a forma como essa pessoa vive, mas dá sim a possibilidade de uma real reorganização, assim como também é possível que nada mude de forma consistente, gerando indignação e confusão em algumas pessoas. E isso é extremamente normal, mesmo que cause estranhamento, basta olhar para nós mesmos. Em diversos graus também não estamos 100% alinhados com a máxima do “somos todos um”.
É comum falar da magnitude da experiência, mas o depois, geralmente, não tem o mesmo peso. Mas é falando do pós que podemos construir nossas histórias a partir dessa sensação de unidade. O que cada cultura faz com isso, o que cada pessoa faz com isso e o que se constrói a partir disso, já não pertence mais à experiência em si, mas sim àquilo que vem depois dela, tenha ela acontecido no espaço, num ritual, numa rave em um retiro espiritual.
